• Velha roupa colorida

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    Se tem uma sensação melhor do que comprar roupa nova, é aquela que acompanha a de colocá-la no armário, reinando sobre as velhas. É uma sensação fugaz, nós sabemos, afinal usaremos a nova na primeira oportunidade, e no dia seguinte olharemos ingratas para o armário lotado, repetindo baixinho, com vergonha do impropério: não tenho roupa…

    E ainda que achemos que a maioria das nossas roupas não prestam, por algum motivo místico elas se mantém no armário por um, dois, dez anos. Além da necessidade, claro que tem um fator emotivo aí no meio, e ele se revela em dias de arrumação.

    Roupas não são apenas roupas: elas ajudam a contar a nossa história — e dá-lhe nostalgia, lágrimas de crocodilo e promessas de regeneração enquanto se agarra àquela blusinha já toda amarelada que usou no primeiro dia da faculdade. Acho que é por isso que é tão difícil se livrar de certas peças em “petição de miséria”, como diria minha mãe, enquanto outras vão embora facinho, enquanto se comemora um novo cabide vazio.

    Muitas dessas peças não tão queridas são novas, e aí começa o novo dilema: doo? Faço pano de chão? Passo para minha irmã? Todas opções válidas. E, ultimamente, outra moda que ganhou força ajuda nessas horas: os sites de venda de roupas usadas.

    Entrei num desses sites para vender uma calça que comprei num impulso e nunca usei. Enquanto passeava pelas páginas me diverti em ver o contorcionismo das outras vendedoras tentando me convencer a comprar itens “usados pouquíssimas vezes” e “super na moda” que provavelmente não eram lá muito necessários e foram comprados em dias pouco inspirados.

    Era o caso na minha calça infeliz: uma calça social preta com uma listra branca na lateral. No anúncio você leria “calça super curinga, usada poucas vezes, estilosa”, mas na verdade o que eu deveria dizer é que: comprei essa calça num sábado nublado numa promoção de uma dessas lojas que te convencem que você pre-ci-sa de uma calça da moda. Provei em casa, me olhei no espelho, e lá vi: parecia o Michael Jackson, ainda mais com um par de meias brancas que usava inadvertidamente na ocasião. Deixei ela num canto do armário por meses. Tentei desovar para a minha irmã. Ela chegou à mesma conclusão. Agora ela pode ser sua! Usada poucas vezes, super curinga!”.

    Ainda que rendesse boas risadas, acho que não conseguiria me livrar da calça. Moral da história: menos compras em dias pouco inspirados (e de meias brancas), mais compras focadas e necessárias. Se a minha calça for o que você precisa, estou à disposição. E eu tô precisando muito desse cabide!

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  • Superlotação

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    Cuidar de uma casa não é fácil, mas isso já é clichê, todo mundo sabe. É um tal de planejar refeições, limpar o banheiro, varrer toda a hora a casa (como pega tanta poeira?) e deixar pra limpar aquela janela da sala sempre na outra semana. E mesmo se estiver tudo em dia, pode ter certeza que algo novo surgirá.

    Dessas coisas que surgem a cada minuto, a roupa suja é uma delas. Atividade hercúlea em tempos de verão, diga-se de passagem. Varal lotado num dia só pode significar que a pilha de roupa para passar também está crescendo em progressão geométrica.

    Você caça uma blusa que não precisa passar aqui, passa uma calça preferida ali, e vai levando. Ao menos, eu vou levando. O namorado constata à meia-noite do domingo, derrotado:

    — Não tenho uma camiseta no armário, tenho que passar roupa essa semana.

    — Nenhuma camiseta? Nenhuminha?, respondo eu, um pouco relutante.

    Abro a porta do lado dele do armário. Realmente, nenhuma camiseta. Abro a porta do meu lado. Tinha muita roupa. Muita mesmo. Eu poderia facilmente viver com a pilha de roupa para passar duplicando, triplicando. Lógico que não seriam minhas roupas preferidas, mas eu não andaria pelada.

    Sempre tendo a achar que o namorado tem roupa de menos. Mas aí eu percebi que eu tinha demais. Não compro tanta roupa assim, mas somos em três irmãs, além da minha mãe, então o escambo familiar é grande. O apego, maior ainda. Tem blusa nova guardadinha e blusa velha que mal para no cabide.

    Por isso que toda vez que vou a uma loja de roupa e me encanto por algo, fico pensando: preciso de mais roupa? Mas quando abro meu armário antes de sair: eu não tenho roupa! Claro que vivemos num mundo consumo-capitalista que vai sempre te convencer de que o que você tem é lixo e você precisa sempre de coisas novas. E coisa nova é uma delícia mesmo, então se privar de uma camisetinha de R$19,90 também não é lá muito saudável.

    Onde fica então o equilíbrio? Se eu soubesse, não estaria aqui escrevendo esse texto. Cada um deve tentar encontrar o seu. Tento resistir à tentação das compras apelando para a razão — o que geralmente é um pé no saco, mas ao menos ajuda  a economizar um dinheirinho. E o armário pequeno também agradece.

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